“Estou em minoria absoluta, por ser mulher na oposição. Mas acho que está sendo excelente, porque é um exercício de aprender na marra mesmo. É preciso ter muito argumento para defender um ponto de vista”
Ana Paula Rossi (PMDB) ocupa uma posição peculiar na Câmara Municipal de Osasco: é a única mulher em meio aos 21 vereadores. Nessa entrevista ao Diário, ela fala sobre uma de suas principais bandeiras, que é o combate à pedofilia e também sobre o projeto para ampliar os esclarecimentos da população sobre a adoção de crianças. Analisa ainda o trabalho da oposição no Legislativo e o cenário político das próximas eleições, na qual vai disputar o cargo de deputada estadual e fazer dobradinha com seu pai, o deputado federal Francisco Rossi, que concorre á reeleição.
A senhora apresentou, na Câmara, um projeto criando a Semana da Adoção em Osasco. Qual é o objetivo?
A Semana da Adoção foi um projeto inicial. Depois, conversando com promotores, juristas, inclusive de outros Estados, surgiu a ideia de fazer uma Semana da Garantia do Direito à Convivência Familiar, que é muito mais abrangente. Quando sugeri a Semana da Adoção, não queria discutir apenas a adoção, mas também a questão dos abrigos, como acontece a distribuição do poder familiar, e ainda o que justifica o abrigar uma criança, pois essa é a última medida de proteção prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, além da questão da adoção internacional. Seria uma semana para discutir um tema que até hoje é um tabu, pois não é muito comum você ver as pessoas conversando sobre adoção, sobre os abrigos, e eu acho que é algo que tem que ser debatido.
E como ficou o projeto após essa alteração?
Foi uma alteração para abranger também esses assuntos, pois a Constituição diz que todos têm o direito à convivência familiar. Então, uma criança que está no abrigo tem esse direito cerceado. O abrigo nunca vai substituir uma família, seja uma família biológica ou adotiva. A intenção é esclarecer as pessoas sobre isso, pois acho que elas carecem de informação. Temos uma mãe pobre que vai ter um bebê e alguém chega para ela e diz que não tem condições de criar um filho. Isso não é justificativa, pois a criança tem o direito de ficar com a mãe. As pessoas sem informações acabam levando isso como verdadeiro. Cabe ao poder público dar condições a essa família, para que ela crie a criança.
Então, o esclarecimento é fundamental nessa questão, inclusive para quebrar preconceitos?
A cultura de adoção do nosso país é para crianças mais novas. As pessoas têm muitos preconceitos. Queremos quebrar o preconceito por meio da informação. Eu tenho três filhos, todos de adoção. As pessoas precisam saber, por exemplo, que para uma adoção internacional devem se esgotar as possibilidades da criança permanecer no seu país de origem. Como vamos adotar crianças haitianas sem aprender a lidar primeiros com as nossas crianças que estão nos abrigos? Temos locais irregulares, sem condições de abrigar crianças.
Qual a previsão para que o projeto seja votado?
Acredito que assim que voltarmos o recesso ele vai entrar em votação, em agosto.
Mudando de assunto, como estão as articulações para a campanha desse ano?
Foi realizada a convenção do meu partido, o PMDB, e eu me inscrevi como candidata a deputada estadual, Já apresentei meus documentos e até o momento está correndo tudo certo e tranqüilamente. Estou com minha candidatura garantida para deputada estadual e vou dobrar com o meu pai (o deputado federal Francisco Rossi) nessas eleições. A dobradinha é mais do que natural. Com certeza ele será o meu cabo eleitoral.
Como foi o seu ingresso na política?
Hoje pode não parecer, mas eu já fui muito tímida. Participava das eleições com o meu pai, sempre participei, mas nos bastidores. Não não gostava de falar em palanque, participava sempre da coordenação da campanha. Tinha pavor de microfone. Mas creio que Deus tem um propósito para tudo e hoje as pessoas pedem para tirar o microfone da minha mão. Vi muita coisa que eu não concordei e pensei que precisava fazer a minha parte. Na tribuna, hoje, eu analiso e brigo pelo que está certo ou não, na minha opinião.
E falando sobre os trabalhos na Câmara, como está a oposição?
Como oposição, estamos conseguindo articular. Temos 21 vereadores, sou a única mulher e são 17 vereadores da base de sustentação do prefeito, e 4 de oposição. Estou em minoria absoluta, por ser mulher na oposição. Mas acho que está sendo excelente, porque é um exercício de aprender na marra mesmo. É preciso ter muito argumento para defender um ponto de vista.
E essas articulações tem surtido efeito?
Eu acho que a oposição está indo muito bem, não é aquela oposição burra, do não pelo não. Votamos a favor de projetos do prefeito e isso é bom para a cidade, pois queremos defender o que é melhor para Osasco. Agora, quanto à parte da fiscalização do Executivo, encontramos bastante dificuldade, porque uma das formas para agente fiscalizar é por meio de requerimento, isso vai para votação na Casa e, como somos minoria, não há interesse em passar informações para a oposição. Tenho meu primeiro requerimento, que apresentei no começo do ano passado, solicitando informação sobre o processo de licitação das empresas de ônibus, e foi para geladeira. Não é nem geladeira, é freezer. Dizem que é regimental, mas é imoral. São informações para que possamos fiscalizar e isso dificulta a fiscalização.
Outro projeto de sua autoria é da Semana de Combate à Pedofilia. Quais foram os resultados?
Ela aconteceu de 10 a 15 de maio. Foi um projeto que apresentei no ano passado e o prefeito sancionou, virou Lei e faz parte do calendário do município. Essa foi a primeira Semana do Combate à Pedofilia e as atividades que aconteceram no município partiram só do meu gabinete, foram iniciativas minhas. A prefeitura não promoveu nenhuma atividade. No fechamento da semana, fizemos uma pequena caminhada e nos deram reforço de segurança. Eu agradeci, mas foi o único apoio que a prefeitura deu.
Existe um projeto para criação da Comissão da Mulher na Câmara. Como está o andamento?
Na verdade, todos os vereadores assinaram para criar uma Comissão Permanente da Criança, da Juventude e da Mulher. Seria uma única comissão para tratar todas essas questões e dar suporte ao conselho tutelar, para cobrar o município. Mas faltou interesse por parte da mesa diretora.
Amauri Moura